José Maria Coutinho (o filho) sempre foi um rapaz decidido e empreendedor. Desde tenra idade sonhava construir a sua própria fortuna (aquele tipo de fortuna também conhecida por sorte). Estava cansado que o comparassem com o pai, José Maria Coutinho (o respeitável advogado da fidalguia e burguesia enriquecida, a quem todos recorriam em momentos de aflição), de quem herdara o talento da oratória e, quiçá, da versificação. Tal como o pai, o Zé Maria era dotado em engendrar argumentos favoráveis para as suas empresas e, quem mais lucrava com isso, eram os amigos, que recorriam aos seus serviços a todo o instante (não havia melhor pregador para os livrar de um merecido castigo).
No que toca à poesia, o menino não conseguia descobrir, nas aborrecidas eloquências do Dr. José Maria Coutinho, quaisquer resquícios de lirismo; estava convencido que devia esta sua habilidade ao avô José Maria, mais conhecido por D. Coutinho (o maior conquistador e poeta da comarca, segundo rezava a história), a quem as musas agraciaram largas vezes. Zé Maria encontrava-se então num impasse: de um lado a senhora da balança, do outro as musas graciosas (ou seriam Tágides, como ouvira professora de português dizer numa aula sobre Camões; enfim, pouco importava o nome). Como não conseguia escolher (e era dotado das duas artes), resolveu agarrar na sua Viola e partir pelo mundo, cantando versos para animar as almas e conquistar o amor e a sua sorte.

