“Os Direitos Inalienáveis do Leitor” (Daniel Pennac) e EU!

Um dia, no intervalo de uma aula de Didática da Literatura, um sábio professor disse-me que a sua biblioteca estava dividida em três partes: os livros que leu, os livros que ainda quer ler e aqueles outros que desistiu de ler ou cuja leitura adiou para data incerta. Finalmente fez-se luz na minha mente! Obrigado prof. Fernando Pinto do Amaral. Jamais voltarei a ter remorsos por comprar mais livros do que aqueles que consigo ler, jamais voltarei a sentir-me mal por não conseguir acabar um livro ou por não me lembrar os motivos que me levaram a optar pela aquisição de outro.

Aquilo que mais me apaixona na vida são os LIVROS! O cheiro, o toque, o peso. Ainda hoje não consigo sair à rua sem um livro (nunca se sabe quando surge a oportunidade ou vontade de ler), sinto-me despida se não o fizer. De facto, reconheço-me em cada um d’ “Os Direitos Inalienáveis do Leitor” (in PENNAC, Daniel, Como um Romance):

«1. O direito de não ler.» – porque não quero, porque não é oportuno, porque não!;

«2. O direito de saltar páginas.» – e porque não? Quem disse que um livro se deve ler apenas da primeira à última página?;

«3. O direito de não acabar um livro.» – bem… se esta lei não se aplicasse à minha pessoa, poderia armar-me em fundamentalista e dizer “Nem pensar! Já que o começaste a ler, termina-o!”, porém há livros que ficam, indefinidamente, na estante à espera  que os reabra e leia;

«4. O direito de reler.» – os livros que se relêem são como velhos amigos que se reencontram. Há sempre coisas novas a descobrir, características que antes não se notaram, defeitos para os quais se fechou os olhos, virtudes que surpreendem.

«5. O direito de ler não importa o quê.» – quem disse que só se deve ler LITERATURA? Nem todos os livros que se encontram nas livrarias farão parte dos cânones literários… porém ajudam-nos a viajar nos sonhos. Aliás, podemos ler tudo: da bula do medicamento à revista de mexericos; dos livros de auto-ajuda aos tratados científicos; dos bestsellers na moda aos clássicos da literatura…

«6. O direito de amar os “heróis” dos romances.» – Ah! Quantas vezes se suspira com aquele herói (ou mesmo anti-herói) do último livro lido!?Quantas vezes se discutem as suas ações ou o seu carácter? Tal como na adolescência, todos os amores são eternos… até aparecer um novo!

«7. O direito de ler não importa onde.» – Pois claro! Nem todas as salas de leitura são convencionais… mas isso não interessa mesmo nada!

«8. O direito de saltar de livro em livro.» – Um, dois, três, quatro… tantos quantos a nossa vontade o exigir!

«9. O direito de ler em voz alta.» – sim, claro! Há palavras que só fazem sentido quando ditas em voz alta! Há textos cuja beleza não deve ficar escondido na mente.

«10. O direito de não falar do que se leu.» – há segredos que devem ficar bem guardados!

A minha paixão pela leitura e pelos livros começou desde cedo. Sempre fui perita em sonhar acordada e a leitura sempre foi um veículo apropriado. Lembro-me de aos 12 anos ter requisitado na Biblioteca Municipal “A insustentável leveza do ser” de Milan Kundera. Nada até então me parecera tão belo. Confesso que hoje, só me lembro do título do livro (eis mais um que terei de reler). Também na adolescência devorei todos os livros de Júlio Diniz, apaixonando-me por todos os protagonistas e rezando para que o amor saísse vitorioso. Descobri recentemente que há livros que devem permanecer na lembrança e cuja releitura não é recomendável.

Ao longos dos anos li livros que apaixonaram e livros que odiei; li e reli livros; li porque tinha de ser e li porque quis; li traduções e originais; li clássicos e bestesellers. Li de tudo um pouco e não me arrependo. São assim as paixões: aventureiras, destemidas, indeléveis e transformadoras. E definem-nos … fazem parte do nosso Ser.

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